Enzo, esse post é para você ter uma referência sobre a sua família e nossas origens.
O vovô Ed (Edgard de Souza Ferreira), nasceu em 29/05/1942 aqui no Rio, filho de um casal de portugueses que tinham vindo tentar a vida por aqui.
Antonio de Souza Ferreira era um dos sete ou oito filhos de uma família simples que vivia na Vila de Lamas, na Região de Viseu, em Portugal. Foi o escolhido para servir de arrimo aos avós, como era costume na época. Com isso, diferentemente dos irmãos, não foi à escola, cresceu analfabeto, tocando um pequeno gado de cabras e servindo aos idosos. Acho que ele nunca se conformou com isso e, até onde pude compreender, ele fugiu para o Brasil após um ou outro irmão já estar aqui estabelecido. Nunca desejou voltar. Trabalhou sempre muito honestamente, como lavador de carros e outros serviços bem simplórios. Era uma pessoa de pouca ou nenhuma ambição, poucas palavras e nenhuma cultura. Só sabia o que aprendera da vida. Depois de casado, trabalhou no mercado.Vida dura. Acordava de madrugada, carregava caixas. Abriu uma mercearia numa loja embaixo do cortiço onde morava e dali tirou o sustento da família até a aposentadoria. Raramente cobrando muito mais do que tinha pago no produto, pois sequer compreendiam bem as questões financeiras e tinham um pudor cristão sobre o lucro.
"Sempre alerta", era a expressão que usava para nos avisar que os perigos nos rondavam. Era seu jargão. Fora isso, jogávamos dominó e me contava algumas poucas fábulas que lembrava, com a raposa sempre presente, e era absolutamente dedicado e apaixonado pela família. A família que apenas incluía a mulher, o filho, a nora e a neta. Com os outros se indispôs depois de alguma indireta mal digerida sobre a falta de semelhança entre ele e seu único filho.
Era o mais prestativo dos seres. Saía de São Cristóvão para me buscar no colégio, no Méier, e ficar comigo até minha mãe chegar. Nesse período, lembro dele quase sempre mudo ou cochilando ao meu lado. Mas sempre lavava a louça para ajudar. Às vezes, meu pai me levava para sua casa, nas férias. Ele me levava para a pracinha e, enquanto minha avó comprava o pão no mercado, ele me empurrava no balanço. Nunca reclamava, nunca pedia para parar. Ao fim do dia, me levava de ônibus para casa. Me punha sentada, eu cochilava, ele ficava em pé, velando meu sono e, acredito, evitando cochilar também. Tinha muito jeito com animais. Apegou-se muito a um pintinho que encontrei no lixo, quando minha avó me levava para o curso de inglês. Tornou-se uma galinha branca gorda que achava que era cachorro e andava atrás dele sempre, sem dar bola aos outros da mesma espécie. Deu-lhe o nome de Cumbuca. Quando eu cheguei na adolescência e eles não eram mais 'necessários', minha avó decidiu ir morar numa área rural, perto de onde um irmão dela já morava. Ele já não estava bem, parecia que ficava confuso e que andava atormentando minha avó. Seguiram-se inchaços nas pernas e um desligamento progressivo da realidade. Morreu quando eu tinha 15 anos.
Maria José Sobral Ferreira era uma fortaleza. Uma mulher decidida, pragmática, mandona e brigona. Mas muito amorosa, trabalhadora e prestativa também. Nasceu em 1917 numa vila vizinha à do meu avô, mas de nome mais poético: Pinheiros. Também numa família de 6 ou 7 filhos. Pobres, mas unidos e, aparentemente, felizes. Tinha muitas histórias de sua infância para contar e contava-as com gosto. Eu me deliciava com os relatos dos apuros do inverno, a descrição da casa com o paiol embaixo, das travessuras, das brincadeiras, dos banhos de rio... Pareciam tão livres...
Com a recessão da guerra, via seu pai ir e vir do Brasil em busca de dinheiro para a família. Algumas vezes, voltava com a roupa do corpo, posto que acabava por se engraçar com alguma mulher por aqui ou fazer alguma besteira e acabava 'limpo'. De volta à família, seguiam-se brigas, reconciliações e... um novo filho. E, com isso, a necessidade de voltar ao Brasil para conseguir mais dinheiro...
Uma vez, já mocinha, ofereceu-se para vir com o pai. Deve ter sido tranquilizador para sua mãe, ter alguém para ficar de olho naquele homem, imagino. Se bem que um outro irmão, o Manoel, já tinha vindo também, mas fugido da polícia, por alguma falta que cometeu por lá. O que minha avó não contou, na época, é que, na verdade, vinha para ver se encontrava um rapaz por quem tinha se enamorado, e também tinha vindo tentar a vida. Disse-me ela que chegou a encontrá-lo muitos anos depois, já casada, num ônibus. Ele a reconheceu, mas ela fingiu que era outra pessoa, pois já não adiantava mais reencontrá-lo.
No Brasil trabalhou como empregada doméstica na casa de uns grã-finos. Aprendeu com governantas inglesas, viu como vivia a alta roda, até dava-se bem com eles. Um dia foi com o pai ao circo e foi por este apresentada a um patrício que logo encantou-se por ela. Protegeu-a com o braço da multidão e ela se sentiu amparada pelo belo rapaz que lhe lembrava as origens e cuja seriedade lhe dava segurança. Casaram-se.
Ela era a força, o esteio e o prumo do casal. Semialfabetizada, logo notou que seria ela quem teria que levá-los adiante. Chegaram a comprar um kitinete em Copacabana, perto do serviço. Mas quando ela, finalmente, engravidou, aos 28 anos, decidiram afastar o filho das más companhias que infestavam o lugar e, num investimento absolutamente improvável, trocaram por um apartamento num cortiço em São Cristóvão. Viveram uma vida modesta de comerciantes e tiveram muita dificuldade para educar o filho rebelde, que encontrou más companhias de qualquer maneira.
Na minha infância, ela revezava-se com meu avô nos cuidados comigo, nas idas ao Méier para me buscar ou levar à escola, enquanto meus pais trabalhavam. Mas, para mim, ela era a melhor avó do mundo! Conversávamos muito e ela me entendia como ninguém. Apesar de seu gênio fortíssimo, que fez um inferno na vida da minha mãe várias vezes, comigo nunca brigou ou sequer se indispôs. Era amiga, permissiva, parceira. Era avó e estava ali para isso. Quando eu tinha uns 10 anos, passei pela fase de ter vergonha de andar com adultos. Ela ia até a porta da escola e escondia-se atrás de um carro nas imediações. Eu a via, trocávamos olhares e eu seguia com minhas amigas como se estivesse sozinha. Ela vinha atrás, paciente, disfarçando. Não via aquilo como uma desfeita, mas como uma coisa normal da pré adolescência. Tinha esse nível de sabedoria aquela mulher.
Quando eu não precisei mais dela, bateu o pé na mudança para a área rural. Não queria viajar, ou voltar à sua terra, mas precisava voltar a conviver de perto com a natureza. Comprou uma casinha num lugar afastado de tudo em um distrito de Queimados, onde já morava um irmão seu, de acesso dificílimo, que tinha uma rua (muito) esburacada de 1km entre sua casa e a rodovia. Mas, apesar de ter sido o início da derrocada do meu avô, que morreu pouco depois, ela foi feliz ali. Plantou, colheu, criou sozinha os mais diversos animais - vacas, galinhas, cabritos, cachorros - todos soltos, para desespero da vizinhança e suas hortas. Íamos visitá-la uma vez por mês e eu me encantava com o fato de que, às 5 da tarde, bastava ele chamar de volta, que os animais ressurgiam dos mais diversos ângulos do terreno, retornando aos seus cercados para dormir!
Presente bom era presente útil. Pessoa boa era aquela que produzia e ajudava os outros. Vida boa era aquela que trazia independência e liberdade. E ela amava a liberdade e sua autonomia.
Depois que ficou viúva, ficou muito assanhada. Sempre tinha uma história de um paquera, um namorinho. É certo que era uma 'rainha' no lugar em que a maioria era pouco mais que miserável. Ela ajudava como podia e, quando não estava brigando com nenhum vizinho, era a mais adorável das criaturas.
Mas ter uma mãe idosa, com o dinheiro da pensão, num local tão ermo, não era confortável para o meu pai. Alguns anos depois o tráfico de drogas tomou o local. As ruas eram vigiadas por
homens armados e meu pai morria de medo de ir lá. Eu fui proibida de
voltar a visitá-la. Ela, inflexível, aguentou sozinha até mais de 80 anos, quando começou a baquear. Ficou difícil subir na caixa d´água para limpá-la sem cair e machucar-se, por exemplo. Mas a gota d´água foi o assalto que sofreu dentro de casa. Aí sim, sentiu-se vulnerável e aceitou ser levada embora.
Passou uns dias em nossa casa, mas como amante da liberdade que era, não sentiu-se bem presa naquele quarto de empregada do apartamento de 70m2 de fundos na Tijuca, onde morávamos. Visitou alguns asilos nas proximidades com meu pai e escolheu um que tinha uma grande área externa, com árvores, viveiros de pássaros e quartos espaçosos. Pediu para dividir seu quarto com outra senhora, que virou sua amiga e logo arranjou um namorado entre os moradores. Tomavam sol pela manhã de mãos dadas. Fazia trabalhos manuais e tinham aulas e apresentações para assistir. O problema é que, na velhice, a derrocada é repentina e cruel. Após, alguns anos, os amigos começavam a desaparecer ou a enfrentar a senilidade. E ela perdeu a vontade de continuar. Um dia fui chamada pois ela estava muito mal. Consegui uma ambulância, a reidrataram e ela voltou a si. Quando me viu, perguntou porque eu havia feito aquilo. Disse que deixasse-a ir. Eu disse que não podia ter desistido. Ela se foi logo depois, após o reveillon, aos 92 anos.
Edgard foi batizado com esse nome em homenagem ao seu padrinho, o ex patrão da minha avó, o milionário Edgard Rocha Miranda, que nunca mais viu. Logo em seguida, foi ser criado no cortiço em São Cristóvão. Para uma criança, o cortiço era uma festa constante. Crianças correndo por todo lado, a vida praticamente em comunidade, comia o feijão de uma, passava horas na casa de outra. Tinham cachorros, macaco. Minha avó caiu doente por dois anos. Meu avô só sabia fazer sopa de legumes. Isso gerou uma aversão eterna de legumes ao meu pai.
Na adolescência começou a dar trabalho. Não queria estudar, começou a fumar, sumia de casa. Minha avó ficou loca, não conseguia controlá-lo. Até ajudava meu avô no mercado. Acordava cedo, carregava caixas. Mas devia aprontar muito, pois acabou no internato do Colégio Pedro II. Sofreu muito no primeiro ano, enquanto era bicho (calouro). Trotes constantes, solidão, saudades. Acabava preso nos fins de semana também. Depois acostumou, tornou-se veterano, deve ter dedicado-se a azucrinar outros iniciantes. Repetiu ano por causa do professor de Latim. De latim! Nunca o perdoôu.
Quando se viu livre, voltou para a esbórnia. Arrumou um emprego num banco, alugou um apartamento com amigos e virava noites na sinuca e na farra.
Um dia atendeu o telefone no banco. Uma voz insegura de menina não o enganou. Era trote. Deu corda, fingiu ser a pessoa procurada, o Paulo Roberto. A moça deu o nome de Claudia e a paquera rolou solta. Ela passou a ligar todos os dias na mesma hora e, apesar do nome falso, ela falou sobre sua vida real, das três irmãs, dos pais italianos e comerciantes em São Cristóvão... Só que a telefonista do banco também era gamada no Edgard e não gostou daquela paquera. Um dia, armou uma mentira, imitando a voz da menina. Meu pai não gostou e acabou sendo rude com a "Claudia", que, chateada, nunca mais ligou para o banco à procura do "Paulo".
Quando se deu conta da cilada em que havia sido pego, Edgar ficou louco para se desculpar com "Claudia". Relembrou todas as conversas que haviam tido e... bingo! Só podia ser a filha caçula dos italianos donos da loja de ferragens nas proximidades de onde fora criado! Era.
Namoraram, noivaram, marcaram casamento. Nas vésperas das bodas meu pai recebeu um convite para ser treinado na ciência que começava a surgir: a computação. Só que teria que se mudar para Salvador, na Bahia. Minha mãe não aceitou de jeito nenhum e ele acabou abrindo mão da grande oportunidade profissional de sua vida. Um fantasma que os assombraria por muito tempo... Ainda mais porque houve um desfalque no banco logo depois e, mesmo sem ter nada a ver com isso, acabou desempregado.
Mantiveram o casamento marcado. Ela fez concurso para professora primária, ele foi trabalhar com o sogro como atendente no balcão da loja de ferragens. Deram entrada num apartamento de 60m2, no 4o andar de um pequeno prédio sem elevador no Meier. Casaram-se tendo muito pouco e igualmente poucas perspectivas. O que ganhavam era para a prestação da casa e a comida, basicamente.
Depois de dois anos difíceis, veio a gravidez. E o desespero de como inserir as necessidades de outro ser naquela situação. A solução veio através de um primo da minha mãe, apelidado de Dondó, que ofereceu um emprego ao meu pai numa empresa de engenharia, sob a condição de que ele entrasse para a faculdade nesse ramo. Meu pai odiava matemática, odiava engenharia. Se tivesse que fazer uma faculdade, seria de jornalismo. Mas fez um vestibular para uma faculdade particular de engenharia e pegou o emprego.
Eu pouco vi meu pai durante a primeira infância. Ele trabalhava de dia e estudava à noite. Saia quando eu ainda dormia, voltava quando eu já estava dormindo. Nos fins de semana estava sempre cansado ou estudando com amigos no quartinho dos fundos lá de casa. Os passeios que fazíamos eram, basicamente, visitar meus avós e tios.
Dinheiro não tínhamos quase nenhum. Mas nunca deixei de ter uma festinha no meu aniversário ou um presente caprichado no dia das crianças e no natal. Não sei como ele fazia. Mais tarde, soube que pedia empréstimos, economizava no almoço que comia na rua... Enfim, era esse seu modo de demonstrar carinho por mim. Só fui entender depois de grande.
Férias, sempre em Araruama ou Teresópolis, na casa de tios ou amigos. Ele sempre cercado pelos sobrinhos, jogando buraco noites adentro. Não tinha muita paciência para crianças e muito menos para meninas. O tio Ed era praticamente um adolescente. Exercia sua paternidade ficando em pé na lagoa para que eu passasse por baixo das suas pernas e fazendo questão de me levar ao baile de carnaval no clube.
Formou-se na faculdade, comprou um fusquinha azul muito velho, apelidado de Trem Fantasma, que sempre enguiçava. A vida começou a melhorar, conseguiu galgar melhores posições na empresa de ar condicionado. Virou gerente de vendas e, apesar de ser honestíssimo em sua vida pessoal, teve que passar anos lidando com a corrupção instalada nos órgãos públicos, para quem precisava vender seu produto. Nunca gostou do que fazia. Nunca falava sobre trabalho em casa.
Nos aproximamos na minha adolescência. Eu gostava de conversar sobre assuntos da atualidade e descobri um pai bem informado, apesar de um tanto reacionário.
Com a melhora financeira, nos mudamos para um apartamento maior, alugado, no Meier e, depois, ele comprou um pequeno na divisa entre Tijuca e Vila Isabel, perto da família de minha mãe. Meu pai tinha muito medo de dívidas. Sabia que não teria com quem contar num eventual aperto. Tinha mania de juntar dinheiro. Mas perdeu muito também. Com planos econômicos, com investimentos em negócios de amigos, emprestando dinheiro a juros baixos. Sempre era enrolado e não sabia cobrar. Tinha os amigos em alta conta. Normalmente, mais alta do que realmente mereciam.
Assim que pode, aposentou-se. Passava seus dias cultivando a enorme barriga, lendo jornais, revistas, alugando filmes e vendo tv. Eventualmente, contratava uma excursão e fazia uma viagem rodoviária, pois minha mãe tinha pânico da idéia de andar de avião. E ele, na verdade, também não era muito fã não.
Foi o meu grande incentivador. Tudo o que sou, devo a ele. Sempre achei que ele não prestava muita atenção em mim, que mal sabia o que me acontecia. Mas ele sabia. Sempre. E intervinha pontualmente, mas de maneira decisiva. Me direcionou na escolha da faculdade, nas provas de concursos. Viu em mim possibilidades com que não sonhava. Evitou que eu cometesse erros sendo muito rígido e me mostrando sempre as consequências dos atos.
Depois que descobrimos que poderíamos contar um com o outro, nos ajudamos muito financeiramente. Ele me ajudou na compra do primeiro apartamento (a juros baixos, afinal, não tinha dinheiro para desperdiçar) e eu o ajudei com o sonho de voltar para Copacabana. Progredimos juntos, viramos parceiros para que um ajudasse o outro a realizar seus objetivos. Ele só não se incomodava gastar mesmo era com suas festas de aniversário.
Pena que não conseguiu mudar seus hábitos à tempo. Gordo, sedentário, diabético, com pressão e colesterol altos, descuidou-se totalmente da saúde. Foi-se aos 70 anos. Antes de realizar seus últimos sonhos: ver a Copa e a Olimpíada realizarem-se no Brasil.