Seguidores

sábado, 30 de junho de 2018

Praga - Museu do comunismo - Junho 2018

No terceiro dia de passeio, iríamos explorar a parte nova da cidade, chamada Nove Mesto.

Mas antes, quisemos dar uma passadinha no Museu do Comunismo para ver o que eles falavam do tempo em que estiveram sob a cortina de ferro.

A entrada é bem discreta, tivemos dificuldade de encontrar.

Dizem que a visita guiada com o dono do museu é excelente, mas é caríssima.



A Tchecoslováquia se estabeleceu como um Estado independente em 1918, no território que tinha sido previamente parte do Império Austro-Húngaro. Era uma nação muito industrializada, com 3 fábricas de automóveis e em franco desenvolvimento.

No entanto, com trabalhadores abaixo da linha de pobreza, ganhando até 12 coroas por semana, o partido comunista, instituído em 1921, acabou florecendo com promessas de igualdade.

Com a crise dos anos 1930, os comunistas ganharam mais força, mas o país acabou sucumbindo ao nazismo, apesar de seus esforços na construção de bunkers de defesa por toda a fronteira. Em 1938, o Tratado de Munique, sem a presença do presidente deste país, fazia da Alemanha 'protetora' da Tchecoslováquia, o que consistiu, na verdade, numa conquista sem bombardeios ou mortes. O tratado de Munique não englobou toda Tchecoslovaquia. Hitler argumentou apenas sobre a província (região) da Bohemia, onde, supostamente, viviam arianos “irmãos” da Austria (terra naral de Hitler) e da Bavaria (sul da atual Alemanha, região cuja capital é Munique). Gottwald, o presidente do partido comunista refugiou-se em Moscou até 1945.

O país perdeu, na prática, sua soberania e passou a viver sob fortes restrições. Seus cidadãos tinham limitações de trânsito e eram descontados em 20% de seus salários para compensar o governo alemão das 'perdas da guerra'. Os judeus foram retirados do país em grande escala.



Com o fim da segunda grande guerra, diante do país muito fragilizado pela saída dos nazistas, que deixou os trabalhadores empobrecidos e mal remunerados, o partido comunista assumiu o poder, apesar do papel determinante dos americanos na liberação do país.  

Em 1945 todos os bancos, seguradoras e indústrias estratégicas foram nacionalizados.  Assim, 75% da indústria passou a ser do governo. Algumas empresas foram confiscadas sem compensação, enquanto em outras ofereciam alguma compensação aos proprietários, normalmente os mantendo na administração. Na verdade, um grande roubo legalizado por decreto.

As demais empresas menores, que não passaram para o poder do estado, eram boicotadas pelo governo, impedindo que recebessem os bens essenciais ao seu desenvolvimento ou confiscando bens de produção e máquinas, levando-os à falência. Até que em 1960 toda a atividade econômica privada estava extinta no país.

É claro que a 'coletivização' não raro ocasionava confrontos e a remessa dos proprietários resistentes aos campos de trabalhos forçados.  A interrupção da produção, especialmente em fazendas, com a substituição dos administradores por coletivos sem experiência na função, causou um período de desabastecimento profundo.

"Se colocar os comunistas para cuidar do Deserto do Sahara, em cinco
anos não haverá mais areia" Churchill

 Imediatamente após tomarem o poder, os comunistas começaram a formar 'o novo homem socialista'. O Homo Comunista era aquele cidadão que tinha a mesma quantidade de bens que seus camaradas, amava o comunismo acima de todas as coisas, odiava o capitalismo e os Estados Unidos.  E, principalmente, para mostrar seu empenho à causa, era esperado que ele trabalhasse mais do que seria esperado dele!

Trabalho físico, principalmente, era o que era mais valorizado. O trabalhador e cidadão comum tornaram-se celebridades, quebrando recordes de produção em fábricas e fazendas coletivas. A  imprensa retratava esses trabalhadores em matérias especiais, enfatizando sua dedicação e seu amor ao regime acima de todas as circunstâncias, tornando-se parte da propaganda comunista.

Ou seja, os trabalhadores exaustos e mal pagos que aderiram ao comunismo na esperança de  ver melhorar sua situação, continuavam exaustos e mal pagos, e agora trabalhavam ainda mais para provar sua lealdade! 

Esculturas mostrando líderes (Stálin) ao lado de trabalhadores eram comuns. Essa foi apelidada de 'fila da carne'.

A doutrinação na ideologia era ampla e irrestrita, sendo um de seus pilares a educação infantil focada no medo de uma invasão dos capitalistas (nesse ponto, não muito diferente do que fizeram os capitalistas na época da guerra fria) com bombas atômicas ou envenenamentos.  Treinamentos com máscaras de gás eram frequentes, assim como eram prioritárias as construções de abrigos anti nucleares.



As matérias relativas à cultura e língua russa eram muito importantes, pois a União Soviética era um modelo a ser seguido. Entretanto, as oportunidades educacionais estavam intimamente ligadas à lealdade ao partido.  Se um membro da família fosse preso ou denunciado por atividade anti comunista, toda sua família era penalizada. Seus filhos não podiam ascender educacionalmente (ingressar em faculdades ou ensino médio/técnico) e, dependendo do grau de envolvimento desse familiar, sequer podiam frequentar a escola primária.

Na verdade, as penas ultrapassavam os autores dos delitos, deixando toda a família na miséria, com desemprego e cancelamento de aposentadorias, obrigando-os a realizar trabalhos pesados para sobreviver.



De uma maneira geral, era mais fácil para filhos da classe trabalhadora ascenderem profissionalmente (se suas famílias fossem leais ao regime), pois os que antes eram considerados 'da elite' eram sistematicamente humilhados e relegados a posições inferiores.  Uma piada famosa dá conta de um alto funcionário que se exasperou contra um chaveiro que não conseguia consertar uma fechadura, dizendo: "Eu já teria consertado isso em minutos", ao que o homem respondeu: "Com toda certeza, pois o Sr. é um chaveiro e eu sou só um professor universitário."

Um grande problema recorrentemente vivido pela sociedade comunista era o desabastecimento.  A corrupção e as relações de amizade com os funcionários das lojas eram a moeda para garantir a compra de bens que chegavam em muito pouca quantidade (e nenhuma variedade) aos mercados.  Havia uma única marca de cada produto, e ainda assim ansiosamente aguardada.  O povo até tinha dinheiro, mas raramente tinha o que comprar com ele. O contrabando era punido severamente, mas não deixava de acontecer, especialmente pelos próprios oficiais do partido, que detinham as linhas de comércio.

A única fábrica de papel higiênico da Eslováquia não dava conta da demanda, e a crise
aumentou após um incêndio. Tentou-se a importação, mas o governo não podia arcar
com a compra de bens no preço de mercado de outros países. A solução foi usar jornais
impressos em papel adaptável à função de papel higiênico!



Ao longo do século XX, várias ondas migratórias ocorreram na Checoslováquia.  Fugas dos nazistas e, posteriormente, dos comunistas. Muitos conseguiram, mas outros foram mortos ou acabaram nos campos de trabalhos forçados, apenas por tentar cruzar as fronteiras.


Os campos de trabalhos forçados foram moldados à imagem dos campos de concentração nazistas,
 à exceção das câmaras de gás.  No entanto, essa era uma penalidade para as 'elites',pois o mais
 comum eram mesmo as pena de morte, proferidas em julgamentos-show, abertos ao público.

A Primavera de Praga foi um período de relativa abertura promovido pelo Secretário Geral do Partido Comunista, Alexander Dubichek, que após fazer uma varredura na corrupção vigente, entendeu pela redemocratização do país, mantendo-o no socialismo, mas fazendo uma ponte com o ocidente capitalista, buscando um socialismo mais humano, onde os cidadãos pudessem ter de volta suas liberdades essenciais, como a liberdade de expressão.

Mas o Kremlin russo não aceitou esse movimento, pois temia que o processo se espalhasse pelos demais territórios da cortina de ferro, causando sua perda de poder, o que ocasionou uma dura retomada  militar do poder pelos soviéticos em 1968, com centenas de mortos e feridos, enquanto os cidadãos tentavam lutar em vão contra o extenso poderio bélico da potência comunista.

No processo de 'normalização' do sistema pelos soviéticos, toda a cúpula do partido foi trocada e o regime ficou ainda mais fechado, duro e sanguinário e teve apoio no Pacto de Varsóvia, uma aliança militar dos países comunistas para o recrudecimento do regime. Este foi o período denominado "comunismo goulash”, quando só havia goulash para comer e todo mundo passou a achar isso bom. Foi depois da derrocada da primavera de Praga.

Não resisti...
Apenas em 1989 o povo reuniria coragem novamente para tentar nova insurgência. A chamada "Revolução de Veludo", começou após uma manifestação estudantil autorizada para outras razões, mas que acabou derivando para uma de crítica ao regime comunista e pleito por liberdades.  Aos gritos de 'eleições livres' e 'fim ao monopólio comunista ', Vaclav Havel, maior liderança da resistência, fez um discurso icônico onde chaves foram balançadas como uma simbologia do pedido para que as pessoas pudessem voltar a ter controle das próprias vidas.

A manifestação foi violentamente reprimida, com a morte de dois estudantes. No entanto, foi o embrião para que toda a sociedade acabasse se envolvendo e teminou por enfraquecer o regime comunista a ponto de possibilitar que a TV apresentasse reportagens com outras manifestações pela queda do regime pelo mundo, como a da Praça da Paz Celestial, na China e outras dos países da cortina de ferro, que a essa altura já contavam com anos de luta pela democracia.

Seguindo na 'onda' dos movimentos mundiais, a revolução foi menos sanguinária e mais rápida na Tchecoslováquia do que nos outros países, lembrando que a Perestroika de Michail Gorbachev já existia desde 1985 na URSS e a queda do muro de Berlin se deu também em 1989.





Com o fim do comunismo, Václav Havel foi o primeiro presidente democrático e não há dúvidas do seu papel determinante na luta pelos direitos humanos e liberdades individuais no país.

A separação da Eslováquia, país com língua e cultura diferentes, foi amigável e decorrência natural.



quarta-feira, 27 de junho de 2018

Praga - Stare Mesto - junho 2018

Nosso segundo dia de passeios em Praga foi dedicado à Cidade Velha (Stare Mesto), que ficava na outra ponta da Charles Bridge, ao lado da qual estávamos hospedados.

A partir daí, todos os dias foram lindos e ensolarados!




Pedalinhos às margens do rio Moldava

 

O estilo da Cidade Velha é bem parecido com o de Mala Strana, mas os prédios são bem mais altos.









Nos 'perdemos' um pouco pelas ruas antes de nos dirigirmos à praça principal, pois nosso "compromisso" por lá era apenas às 10h.

Aprendendo mais sobre o banho tcheco! 😜


Adorei a escultura da Cabeça de Kafka que roda e se 'desmonta e remonta' a cada giro!

 Para quem não quer explorar a cidade à pé, há uma enorme oferta de transportes possíveis:


Charretes, tuk tuks,...

... vários modelos de carros conversíveis...

... e os tradicionais ônibus tipo hop on hop off
 Mas nosso objetivo era encontrar o pessoal do guarda chuva amarelo que faz a FREE WALKING TOUR . São normalmente jovens muito cultos e instruídos que fazem esses tours de 2 horas em várias línguas.  Eles dão seu melhor e nós pagamos ao final, conforme podemos ou achamos justo.

Rodrigo foi achando que seria um programa chato, mas eu estava empolgadíssima, porque tinha certeza que seria um dos pontos altos da viagem pra mim, que acho imprescindível um bom guia para entender melhor o contexto e as curiosidades do local visitado.

Nosso guia era um americano chamado 'David do Colorado', um americano de origem hispânica que tinha sido levado para Praga por uma história de amor.  Apesar de não ser nativo da área, ele detinha uma quantidade imensa de informações sobre o país! O tour foi realmente muito bom!

David e sua cadelinha

A primeira parada foi na praça do Relógio Astronômico que, infelizmente,
estava em reparos e não estava funcionando.
 A praça é o centro de todas as atividades daquele lado da ponte e todos os caminhos da Cidade Velha parecem partir daquele ponto. Normalmente, está lotada de barracas de comida (caras), shows e artistas de rua, além de todo o movimento natural dos turistas.










O guia começou nos dando dicas turísticas, desde cuidados ao trocar dinheiro, onde (não) comprar comidas típicas, como dar gorjetas e aconselhando a não chamar os tchecos de europeus do leste, mas centrais. 

Depois, passou para a história propriamente dita, partindo da lenda da princesa-vidente que previu seu futuro marido e rei da tribo que evoluiria para o que hoje é a República Tcheca, numa dinastia que durou 600 anos e que já foi encontrada ali estabelecida pelo povo romano.

Também contou curiosidades do país, como a rivalidade com os Suecos, por conta de uma invasão em que muitas relíquias foram roubadas e nunca devolvidas, e a tradição de defenestração (jogar pessoas pelas janelas) utilizada em grande escala pelos bispos católicos na briga com os reformistas.  Contou também de dois bispos que, uma vez jogados, caíram de uma torre do castelo sobre um monte de esterco e sobreviveram, o que deu muito apoio aos católicos na disputa pelo poder.

Claro que é difícil memorizar tudo o que foi contado, pois são mais de 2 mil anos de história e, convenhamos, de uma história bem turbulenta, já que passaram por vários reinados, impérios, guerras, nazismo, comunismo... Mas eu adorei cada momento!!

O ponto seguinte do tour foi diante do Rudolfinium, um dos muitos teatros de Praga, que tem muita tradição na produção de espetáculos musicais.


À frente do teatro, uma estátua de Dvorak, o maior músico
clássico tcheco, sobre cuja obra o guia nos falou.

Depois fomos para a ponte que homenageia Josef Manes (artista plástico), e o guia falou sobre Malá Strana e o Castelo de Praga.  Contou sobre a reabertura política, o primeiro presidente democrático e seu importante trabalho, além da amizade com os Rolling Stones, trazidos para fazer um show logo após as eleições e que acabam doando a iluminação do Castelo.

Demos a ele o apelido de Zé Mané. 😜



Em seguida, rumamos para o Bairro Judeu, que foi um gueto até o final do século XIX, quando os judeus viviam ali confinados com grandes restrições, mas que foi revitalizado no início do século XX, tornando-se um dos bairros mais chiques de Praga.  Hoje em dia, inclusive, é lá que ficam as lojas de grife da cidade, inclusive a Hugo Boss, responsável pelo design dos uniformes nazistas...

Nesse ponto, ele também falou sobre o encantamento de Hitler pela cidade e da sua rendição pacífica aos nazistas, que muito a poupou de bombardeios. Também de que, retirados os judeus para os campos de concentração, o bairro teria sido poupado com a ideia de se fazer um 'museu da raça extinta'.

Museu judaico, onde estão registros impactantes do holocausto

Mais antiga sinagoga, concluída em 1270

Novos prédios 'modernos'



Nesse ponto, fizemos uma paradinha numa filial de uma loja chamada BAKESHOP, lotada de delícias!


Uma passadinha pela torre da pólvora, onde
falou-se das defesas da cidade
 O tour terminou na área da universidade criada por Carlos IV, no século XIV, onde falou-se da importância desse monarca que tanto modernizou e construiu na cidade.


Ali também nos foi falado do papel importante dos estudantes na resistência e nas tentativas de se derrubar o regime comunista, da Primavera de Praga e da Revolução de Veludo.

Terminado o tour, fomos em direção ao Klementinium, que é um complexo de prédios históricos, mas antes fomos procurar um restaurante!

Já estava tudo lotado a essa altura, mas encontramos um restaurante escondidinho, onde Rodrigo comeu um prato com costelas, em uma galeria onde havia um Teatro Negro, muito tradicional de Praga, onde os atores se apresentam contra um fundo escuro e há muitos efeitos especiais.

Não experimentamos esse tipo de espetáculo
dessa vez... Mas se tivesse levado o Enzo, não perderia!
O teatro de marionetes tb é muito popular.
Esse era da ópera Don Giovanni

Em vez de almoçar, eu quis provar o tradicional trdelnik!

As lojas que vendem trdelniks estão por todo lado, e se vê de longe
 esse símbolo nas portas

Os rolinhos ficam girando e cozinhando em frente às portas das lojas

O mais tradicional é apenas recheá-lo com uma fina camada
de chocolate ou caramelo.

Mas eu quis logo uma refeição completa, com sorvete
e morangos!
Infelizmente, ao chegar no Klementinium, que só pode ser visitado com guias, já não havia vaga para as próximas visitas...

 

Voltamos, então, para o hotel para nos prepararmos para o programa dessa noite!

A ponte estava lotada de artistas de rua e vendedores ambulantes:


Rodrigo adorou esse oboé!


O programa da noite era ir ao um show de folclore local, em um lugar chamado Folklore Garden. Fizemos reserva pela internet e uma van do show veio nos buscar no hotel.

O local fica um pouco longe da área turística, mas reproduz bem o clima
'camponês' folclórico

Na entrada, vinho de mel para provar. Gostei!

Sentávamos em grupos de 8 pessoas. Em nosso grupo estavam americanos (do norte).

Pra não dizer que não provamos a cerveja...rs

O show era simpático e, apesar de terem umas 400 pessoas no local, o serviço e a logística era muito eficiente!

As outras nacionalidades eram prestigiadas e ganhamos a bandeirinha
por sermos os representantes do Brasil
O menu era composto de sopa, carne e sobremesa.

Salmão para mim

Joelho de porco com chucrute pro Rodrigo
Torta de maçã de sobremesa

O público é incentivado a participar de algumas dancinhas

Será a cuíca uma invenção tcheca??
 Nos divertimos muito!