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segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Como falar sobre morte?

Há uma percepção nas crianças que foge ao senso comum. Eu lembro que nunca pedi um irmãozinho aos meus pais e também que, quando alguém tocava no assunto, ia logo dizendo que não queria, que jogaria pela janela. E lembro-me nitidamente que fazia isso para desconversar, porque sentia que o tema muito entristecia minha mãe.

O Enzo nunca havia perguntado pela avó paterna. Ele 'passava em revista' o parentesco dos demais avós conosco, os pais, mas sempre engasgava e parava na hora de falar da avó paterna. Era como se ele soubesse que não era para ir lá... para tocar naquele assunto...

Em julho o avô paterno morreu. Ele gostava bastante do vovô Francisco. A letra F era dele e sempre gerava a lembrança carinhosa.  Rodrigo optou por não contar, já que aquele avô já morava longe mesmo, era só fazer como se ele estivesse ainda mais longe. Durante um tempo, Enzo continuou a falar naquele avô. Com o tempo, passou a notar que também havia algo errado ali. Algo que deve ter notado no nosso olhar. E foi parando de falar. Parando de perguntar. Mesmo se aparecia uma foto no computador. Mesmo se a letra F aparecesse no biscoito de letrinhas.

Ele não tinha esquecido o avô. Mas preferia não tocar no assunto, como se soubesse o risco que corria.

Em dezembro eu perdi o meu pai. Foram 2 semanas de correrias, internações, sepultamento. E, obviamente, tentávamos manter o Enzo totalmente alheio a tudo. Mas no dia do funeral, em que ele ficou sozinho com o pai, a mãe 'desaparecida' há 2 dias, ele trouxe à tona a fatídica pergunta:

- Pai, onde está sua mamãe, minha vovó?

Então, Rodrigo explicou que, como aconteceu com o Luiz Gonzaga (que eles homenagearam na escola), ela ficou bem velhinha e morreu.

- O que é morrer, papai?
- Morrer é ir para um lugar muito longe, que a gente não pode ver mais, só por foto.

Aparentemente, ele aceitara bem o conceito. Então, o pai aproveitou para introduzir o assunto e contou da morte dos vovôs.

Mas, aí não! Os avôs eram gente que ele conhecia e amava!

Então, o Enzo negou. E desconversou.

Minha aposta é de que ele não falará mais dele também. Até que consiga encarar de novo esse assunto.

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