Aparentemente recebi uma dose de anestesia maior que a habitual. Fiquei MUITO grogue. Meus pensamentos eram lentos. O tipo de anestesia aplicada me fez perder toda a sensibilidade da cintura para baixo. Eu, que não esperava por isso, fiquei grande parte da cirurgia tentando apertar as nádegas ou mover as pernas, demorando muito para entender o que acontecia... Drogadaça mesmo.
Segundo a anestesista, essa dose majorada foi em função do aumento da pressão, para acalmar bastante e não provocar sangramentos maiores. Da mesma forma, a obstetra alertou ao marido, ao final da cirurgia, que os pontos estariam sendo feiosos, mas seriam mais potentes para conter o excesso no sangramento. Essas duas providências me confirmaram que a médica realmente acreditava numa alteração na pressão e que não tinha sido nenhum "esquema" para forçar a cesárea, como se poderia imaginar.
O marido ficou ao meu lado, segurando minha mão e filmando por trás do pano. Foi corajoso e carinhoso. Aliás, toda a equipe foi bastante carinhosa, falavam comigo, me acariciavam, embora eu estivesse mais "viajando" do que participando do evento no final das contas.
Quando, finalmente, tiraram o Enzo e eu vi aquele serzinho muito arroxeado na cabeça e extremidades, com pés enormes e finos, virados para cima, dedinhos quase tocando os joelhinhos, confesso que meu pensamento foi: "Fudeu, ele é aleijadinho!". Ainda tive alguma diplomacia para perguntar ao pediatra se estava tudo bem, se os pezinhos estavam direitinhos... O pediatra respondeu rindo que toda mãe quer saber sobre os dedinhos dos pés, o que me tranquilizou, porque se ele tivesse mesmo um problema, o homem não faria piadinhas.
Ocorre que o Enzo estava na mesma posição, encaixado na minha bacia, desde os 5 meses de gestação. Nas ultras, brincávamos que ele tava com a cabeça lá e perguntando "Já tá na hora? Posso sair?". Mas a verdade é que ele cresceu com a carinha enfiada naquele osso e já não tinha muito mais como caber ali. Um dos olhinhos estava inchado e fechado de ter ficado comprimido naquele espaço e os pezinhos (bem grandinhos), com articulações muito flexíveis, ainda estavam meio 'dobradinhos'.
Apesar de tudo, quando ele veio para mim no quarto, eu o achei muito lindinho. Não foi o dia mais feliz da minha vida, como costuma se dizer. Foi um dia de alívio, de recomeço, de vitória, mas também de muito stress e preocupações. Apesar do cansaço da cirurgia, dormimos abraçados e eu o protegia a cada susto que ele sentia ao levantar os bracinhos e deparar-se com todo aquele espaço vazio.
Era meu, era para eu cuidar e eu gostava muito dele, tinha desejado-o muito. Mas amar mesmo, apaixonar, só com o tempo... Naquele momento era para nos conhecermos melhor, na verdade, para nos apresentarmos um ao outro, tentarmos nos entender.
Por isso sou contra visitas em maternidade, com exceção de familiares realmente próximos. Esse é um momento entre os pais e o bebê, um importante primeiro encontro de uma relação que será para sempre!
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